Há dez dias foi ao ar uma entrevista com o atual gerente de conteúdo da editora JBC – Marcelo Del Greco – pelo programa HQ & Cia. Durante pouco mais de 50 minutos o ex-editor chefe falou sobre o mercado de mangas, os 10 anos da presença da JBC nele e a posição da própria editora sobre as estratégias de vendas. Ouvindo as palavras de Del Greco cheguei a seguinte conclusão: Se depender da JBC o mercado brasileiro de manga continuará estagnado nos próximos 10 anos.
Neste post pretendo analisar o discurso apresentado na entrevista no sentido mais próprio do conceito “analisar”: decompor em partes para melhor compreensão do todo. Antes é importante salientar que não conhecendo a pessoa Marcelo Del Greco, não tenho pretensão alguma de tecer comentários pessoais, apenas entender o que a posição dele como gerente de conteúdo implica. Não irei fazer um resumo da entrevista, mas destacar os pontos que acho mais importantes, recomendo assisti-la por completo para melhor entendimento.
Observação importante: Este post se limita a criticar a editora JBC por ser uma análise de uma entrevista de seu gerente de conteúdo. Isso não significa que as outras editoras não cometam os mesmos erros.
Marcelo Del Greco 2 from Cesar Freitas on Vimeo.
(Créditos do vídeo para o blog Mundo do Coringa)
O primeiro ponto interessante é a afirmação que os quatro primeiros mangas lançados pela editora há 10 anos atrás – Card Captor Sakura, Guerreiras Mágicas de Rayearth, Video Girl Ai, Samurai X – tiverem um estouro de vendas, o que Del Greco afirma ser reflexo do baixo preço praticado na época (R$2.90) e da pouca disponibilidade de títulos nas bancas. De acordo com ele o maior problema hoje não se dá pelo maior número de editoras concorrentes, mas sim pelo número muito grande de títulos ao mesmo tempo, pulverizando as vendas. Apesar desse problema estar claro para quem acompanha o mercado, cada vez mais as editoras buscam ganhar pedaços do público com enchurradas de mangas novos. Mas se Marcelo afirma que essa política de vendas só dificulta a situação de vendas, por que a própria JBC repete isso? Ao buscar brigar diretamente com um concorrente, o mercado faz uma autofagia que não deve se sustentar a longo prazo. Essa estratégia não é somente nociva a longo prazo. a necessidade de jogar títulos novos nas bancas impede um foco e atenção maiores para dar qualidade ao público. Ou você acha que quando Del Greco fala sobre “queimar” títulos curtos ele está pensando nisso?
Continuando, Marcelo afirma que o diferencial da editora JBC é fazer um planejamento a longo prazo de cada título. Não sei que planejamento um Saber Marionette J possui, mas não vou discutir isso. De acordo com ele, os mangas não são negociados pela série completa, mas por lotes de volumes, o que confirma a velha desculpa para atrasos quando estão negociando as renovações (para mim essas negociações deveriam ser planejadas a fim de não atrapalhar a continuidade dos mangas na sua periodicidade, aceita isso quem quer).
Mais importante ainda é a fala de que a tendência é que com o tempo os volumes de uma série vendem menos, resultando daí eventuais aumentos de preço. O exemplo dado é Negima que passou para absurdos R$7.90 no formato meio-tanko. Sim, porque a culpa de eventuais baixas vendas não estão em erros na escolha dos títulos, falta de marketing (que Marcelo afirma ser construído para todos os mangas que são licenciados, mas você já viu algum plano de marketing grande pela editora com exceção (talvez) de Fairy Tail?), qualidade gráfica questionável, atrasos. Não, a culpa é do leitor que deixa de comprar. Logo, é preciso puni-lo aumentando o preço, o que eu imagino fará com que as vendas caiam ainda mais. Esta matemática me deixa muito preocupado visto a infinitude do próprio Negima. Será que daqui há vários anos ele chegará ao preço de um tanko? Por quanto tempo devemos pagar pelo amadorismo das editoras?
Mas pior! Essa máxima resultou em uma das coisas mais absurdas em questão de preço de mangas. De acordo com Del Greco, é esse planejamento feito pela editora, já pensando na diminuição das vendas, que resultou no preço de R$6.90 para Fullmetal Alchemist. A lógica é que esse preço mais elevado possibilitou que não houvesse aumento no preço durante os anos de publicação. O que isso significa? Que nas primeiras edições, onde (em teoria) as vendas são mais altas, o leitor foi obrigado a pagar pelo preço errado para justificar as perdas posteriores que são responsabilidade da própria editora. Continua-se falando que outro fator do aumento do preço é a obrigatoriedade de pagar royalties mensais. Mas, e aqui posso estar errando por estar limitado ao discurdo do gerente, se esses royalties são pagos de acordo com os relatórios de vendas, possivelmente em uma porcentagem fixa, aumento ou diminuição nas vendas dão na mesma porcentagem.
Mais para frente Marcelo começa a falar da impossibilidade de fazer mangas graficamente mais elaborados pela questão do preço: “Se a gente fosse lançar edições especiais, igual as do Japão ia ficar um preço por edição entre R$60 e R$80.”, “[Apresentadora] É o preço média de um grande quadrinho capa dura”. Fica difícil eu discutir esse preço já que eu não tenho contato com gráficas, mas será mesmo tudo isso? Hoje você vê nas livrarias histórias em quadrinhos com uma tiragem possivelmente menor que um Cavaleiros do Zodíaco teria, com mais de 200 páginas, todas coloridas, em alguns casos com capa dura, tudo isso custando menos de R$60 (claro que muitas custam bem mais, com certeza). Mas não estou nem cobrando isso, só fico pensando se é o nosso mercado que não aceitaria um produto com acabamento mais fino ou são as editoras que não querem isso. Um Cavaleiros do Zodíaco no padrão Editora NewPop já não seria um grande avanço ao invés de simplesmente relançar mangas antigos em formato tankohon como está sendo feito com Evangelion e seu papel de qualidade extremamente duvidosa? Quanto a isso Marcelo Del Greco fala que a editora JBC possui sua linha Graphic Novel, que sim, é um avanço para o que temos normalmente. Mas comparar essa linha ao mercado de livraria é um tanto quanto irreal. Mangas para livraria é isso AQUI (Agradecimentos à Roberta do Elfen Lied Brasil pelas imagens do seu Hourou Musuko Hardcover) ou isso AQUI (Agradecimentos à Panina Manina do Subete Animes).
Se em Julho desse ano fomos surpreendidos pela notícia que teríamos uma republicação de Sakura Card Captores em formato luxo, algo dito por uma pessoa da própria JBC, Marcelo Del Greco faz questão de desmentir isso. Na verdade o que irá acontecer será basicamente o mesmo que foi feito com Evangelion. Com o muito enganoso nome de “Edição especial”, os diferenciais da primeira edição será apenas o formato em tanko, com páginas coloridas e extras, o que certamente é algo positivo, mas fica muito longe do avanço que esperava para esse lançamento. Não só isso, relançar um manga que inicialmente veio meio-tanko em formato tanko não o torna especial, esse deveria ser o padrão do mercado! É apresentada a justificativa de que, por questões de produção, é muito mais caro incluir poucas páginas coloridas em uma edição. Novamente, aqui eu não posso comentar muito por não ter esse tipo de contato, mas me pergunto o quanto isso realmente encarece e por que um Air Gear #1 pode vir com páginas coloridas e custar apenas 1 real a mais.
No fim só o que eu posso concluir é que não existe por parte da JBC – afinal estamos falando do seu gerente de conteúdo – uma vontade de avançar além dos poucos passos que foram dados nesses pouco mais de 10 anos de mangas no Brasil no formato que conhecemos hoje. Aparentemente a vontade é continuar vendendo para o mesmo nicho que já não é exatamente muito grande, esperando para um sucesso televisivo ajudar a alanvancar as vendas. Evoluir seus produtos e diversificar o que é apresentado como lançamentos para bancas e livrarias não parece estar no horizonte da empresa. O que é muito triste para quem torce que essa evolução aconteça.
A entrevista possui outras partes interessantes, como o frase de Marcelo onde afirma que o roteiro de Tenjo Tenge é pior do que aquilo que você pode imaginar em momentos mais íntimos ou que o público de bancas é fundamentalmente infantil, o que explica a falta de apoio aos mangas seinen e josei, ou mesmo que a JBC não entrou nas negociações por One Piece e Dragon Ball (o que me faz pensar que esses dois já estão na Panini), mas fico por aqui na minha análise.
Recomendo que assistam à entrevista, mas só pelo que foi exposto no artigo, o que vocês esperam do mercado de mangas para os próximos dez anos? Não se deixem calar, esse tipo de debate precisa ser feito!
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